segunda-feira, 23 de abril de 2012

Novos Irmãos


ALINO: Jacinta estava com certas dificuldades de saúde, sofrendo grande hemorragia nasal por ocasião de novo nascimento. Chegou a minha vez. Nasci. 15 de abril de 1.939 (neste texto, eu ainda não podia dizer ”meu pai”, “minha mãe”; pois eu ainda não tinha nascido, né?).  
Minha mãe fizera promessa a Santa Luzia pela cura dos olhos dele: se eu nascesse menina, receberia o nome de “Luzia”. Nasci Alino Francelino Gonçalves. Vitalino estava com a idade 41 anos, e ela, 34.
Onde morávamos? Havia a lagoa que dava o seu nome ao lugar onde, em volta, existia algum aterro alto, em cuja base havia pequeno comércio e espaços amplos parecendo uma enorme praça. Daí se alongava um caminho em dois sentidos opostos, com certa população. As moradias eram feitas, em sua maioria, de pau-a-pique, mais chamadas de “casa de capim”, porque eram cobertas de sapé. Poucas eram as de alvenaria e de telhados comuns. Morávamos em uma casa branca que o Sílvio me mostrou sete anos depois, quando lá voltamos; ainda não havia sido construída, ao seu lado, a Igreja Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, o que ocorreu mais na chegada da década de 50.
AMADOR: Em 30 de abril de 1.941, nasce Amador Francelino Gonçalves. Quem vai do referido centro comercial da Lagoa no sentido sul (tipo Asa Norte/Asa sul de Brasília), passará por onde morava Antônio de Menezes com sua família, grande amigo de Vitalino, além de padrinho do Sílvio; em seguida, por onde mora Cinhana, amiga da ti’Ia, uma casa como sendo esquina com o caminho que desce transversalmente para uma pequena ponte sobre um riacho. Contra esquina, estava a casa de nossa avó Josefa. Era uma casa com essas mesmas características, e totalmente livre, sem nenhuma cerca.  Em seguida, era a casa da Titia Teodolina. Depois chegamos a nosso destino: na casinha que foi construída vagarosamente por Vitalino em seu terreninho onde desenvolveu ótimo quintal. É aí que nasceu Amador. Os vizinhos mais próximos eram os familiares de Jacinta: além da titia (Teodolina) e nossa avó Josefa, tia Júlia com sua filha Josefina (Sinhá, Zifina...), tia Maria com o marido tio João e as filhas Conceição e Tereza, além do tio Orozimbo (Nico, não confundir com outro Orozimbo, nem outro Nico da história de Abaeté). Eram destes familiares três residências. Ti’Nico estava com a idade de trinta e um anos (nascido em 14 de março de 1910). Por terem recebido algum valor por um terreno, caíram numa orgia tão desagradável a Vitalino, que Ti’Nico pressionou-o para mudar-se dali, querendo ficar em paz com sua orgia. Vitalino sentia que tal ambiente não era adequado à sua índole com a família. O menino Gercino, de seis ou sete anos estava presente aos rudes tratamentos do tio ao nosso pai e, apesar de ser seu afilhado, nunca o perdoôu.
Ainda bem que pelas boas amizades do pai, não durou muito a contenda. Entendendo-se com o padrinho do Amador, o respeitável e bem humorado senhor Mané Chichico (Manoel Francisco), fazendeiro lá na Gerais e, após fechar negócio com o cunhado Nico vendendo-lhe nossa residência, mudamos para Gerais quando Amador estava com dois meses de idade e, portanto, Alino estava com dois anos e dois meses de idade, o que sempre me serviu de calendário-referência para eventos de lá para cá. Já fui muitas vezes instigado a esquecer o passado, mas para quê? Por que? Não conheço nenhuma borracha para usar em minha mente, nem vejo nenhuma necessidade disto.
Paineiras era um dos muitos distritos no município de Abaeté. Tinha em suas proximidades, a sudeste, o lugar chamado Gerais, banhado pelo ribeirão São Jacinto. Desde 1962 Paineiras emancipou-se município. A distância aproximada entre as duas sedes, no sentido norte, é de cinco léguas (trinta quilômetros).
Seguimos em carro de bois percorrendo todo o mocambo Lagoa de Santa Maria até sairmos do arraial. Não posso me lembrar de todo o percurso até Gerais, porque devo ter dormido muitas vezes na viagem. Mas já próximo da chegada o Sílvio, sempre sirigaita, disse ao Gercino, com pulinhos no assoalho do carro, mostrando que por aí já passou
– Nós vamos passar por três cruz. Cê vai ver. Parece que elas é que estão andando, e não nós.
Mesmo com o carro em movimento levantei-me, segurei nas pontas de dois fueiros, ergui-me sobre a esteira e vi que as cruzes corriam para trás com a nossa velocidade (Né, amigo Einstein?).

Tio Manoel


Tio Manoel. Quem era tio Manoel? Para toda a minha família, para toda a descendência de Vitalino e Jacinta, tenho como tio Manoel seja um personagem quase lendário – adoravelmente lendário, pelo menos na forma que flúi em minha mente desde quando eu estava para nascer há quase 70 anos, no final de 1.938 ou no início de 1.939.

Aquele dia era para ter sido uma data histórica para nós, mas nem foi marcado, como tantos outros dias significativos no calendário. A existência de papel naquele lugar, naquela época, era quase zero e a maneira apenas oral de se falar, registrava os fatos apenas de modo sentimental. E, tal como o dia a dia do nosso povo no país, devagar vai se devaneando cada ocorrência, gerando o costume de se renegar o que se passou, talvez para não sobrecarregar a memória querendo sempre que o passado fique no passado.

Naquele dia alguém o reconheceu quando se aproximava da casa – obviamente deve ter sido o Vitalino reconhecendo seu irmão que há tantos anos não se viam. A meninada toda pôs-se a correr ao seu encontro. Menos eu, que ainda ia nascer...

– Mas, e este aí?

Perguntou o tio, ao entrar pela sala. Era um menino maior, com a idade de 11 anos, que vinha se resvalando apressado, com ares sorridentes, ao longo da parede, como quem procura fazer parte da recepção. Era o primogênito José Graciano Gonçalves, que estava completamente cego. Eis um impacto morteiro na enorme alegria que já havia surgido no que chegou: “– Mas, e este aí?” . Mas a sabedoria e o amor familiar se ajustaram e prosseguiram as festividades com muita alegria de todos e iam se inserindo as questões do Zé. Não sei quantos dias tio Manoel permaneceu conosco. Não sei exatamente qual era o local da Lagoa onde morávamos mas, se eu estava para nascer, então deve ter sido numa casa branca alinhada com outras ao lado de onde, alguns anos depois, foi construída a Igreja Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, bem defronte ao aterro da lagoa.

Eram vários irmãos e irmãs oriundos de dois casamentos do pai deles, o segundo ocorrido no dia 8 de outubro de 1.905 com Placidina Cândida de Jesus: ele, Egydio Francelino Gonçalves com 38 anos de idade e ela 19, quando Vitalino já estava com 7 (ou quase 7) anos. Deixados pela mãe Maria do Carmo de Jesus, falecida, estes eram dois dos filhos. Tio Manoel parece ter sido primogênito, porque havia o costume de homenagear o pai ou avô, etc. dando-lho seu nome, e o pai de Egydio era Manoel Domingos Francelino em 1.867. A mãe, minha bisavó, chamava-se Francisca Joana de Jesus. Por isto,nunca entendi de onde surgiu “Gonçalves”. Tudo isto ocorrera em Santo Antônio do Monte, no oeste de Minas, onde Egydio possuía fazenda. Do primeiro casamento sabe-se dos filhos: Manoel, Vitalino, José, (e Bárbara?). Do segundo, me parece ter sido primogênito Sebastião, porque o pai de Placidina chamava-se Sebastião Venâncio dos Santos. Além dele havia também Divino, talvez o caçula. Não soube eu de outras irmãs além de, vagamente, Bárbara que morou em Betim e na região de Belo Horizonte chamada Cabana do Pai Tomás, hoje apenas Cabana.

Pois bem. Não sei se me alonguei muito na apresentação destes dados neste momento em que estávamos é com a honrosa visita do tio Manoel. Desde quando os dois não se viam? Se Vitalino deixou a família em 1.916 aos 18 anos, mudando-se definitivamente para Abaeté passando, ele também, por dois casamentos, raramente contactando alguém num tempo de dificílimos meios de transporte e de comunicação, lá se vão 23 anos. Ele já está com 41 anos. Além de mim ainda seremos mais o Amador e a Lusia. Jacinta está com 34 anos. As ocorrências, as saudades, as inúmeras alterações que o tempo determina, vão sendo narradas por ambas as partes. Tio Manoel contava, por exemplo, que sua filhinha Maria do Carmo, em Divinópolis onde ele morava, já estava grandinha e que já alcançava, na parede, onde se toca a campainha. Será que ao menos Vitalino, ali no grupo, poderia saber de que é que estava falando? Campainha elétrica longe da cidade? A Clara ouviu isto aos seus 7 anos e, até hoje em seus 77 anos, nunca se esqueceu. Assim estava para nós a feliz presença do tio Manoel lá em casa. Contou também que era funcionário da Santa Casa e que, talvez, poderia levar com ele o sobrinho Zé, para ver se conseguiria cuidar-lhe das vistas, já que sua cegueira era recente e em conseqüência de acidentes no serviço de olaria lidando com cozimentos de telhas e tijolos, além de outros problemas como choques térmicos (constipação) e acidentes na cabeça, na região occipital. Avaliaram as possibilidades e concluíram que sim.

Encontrar o irmão com a família vivendo daquela forma não foi nada agradável.

Deve ter sido realmente frustrante, já que o Zé sempre contou que quando entraram e sentaram-se na jardineira para Divinópolis, ouviu o tio jurar, dizendo :

– Adeus, Abaeté, para nunca mais voltar!


***

A felicidade por aquela visita marcou indelevelmente para sempre toda a nossa família. No início a ausência do Zé só motivava alegria pela grande esperança de sua recuperação, ainda que até mesmo nos tempos atuais não seja comum alguém recuperar-se de cegueira. Neste sentido a fé em Deus não deixa espaço para desesperança. Tanto Jacinta quanto Vitalino eram fiéis ao cumprimento de suas promessas e já tinham tio Manoel como enviado de Deus. Uma promessa de Jacinta era que se viesse a ter outra filha ( já tinha duas), dar-lhe-ia o nome de Luzia, como promessa a Santa Luzia. Só que meses se passaram e quem nasceu, fui eu. Então, mesmo com os tradicionais cultos das mais diferentes alegrias, tanto a família quanto a boa vizinhança não demorou a sentir falta do querido Zé, principalmente pela falta de comunicação e a conseqüente falta de notícias. Pouco a pouco a saudade vai se amadurecendo e transformando-se em nostalgia, sobretudo no amor materno de Jacinta. Não faltava quem procurasse confortá-la e alimentar sua esperança. O pai sempre teve o hábito de reunir a família, principalmente à noite, antes do deitar, para rezar o terço. Ao arrematar, todos tínhamos que nos ajoelharmos para rezar a Salve Rainha. A mãe sempre tinha, enquanto viveu, seu livrinho com que ‘tirava novena’...

Já estamos em torno de 1 ano que o Zé foi para Divinópolis com o tio Manoel. Sem que ninguém saiba de nada, eis que está chegando em casa o Zé, sozinho, com seus apetrechos de viagem. Ninguém está em casa. Os vizinhos recebem-no. Vai uma mocinha correndo aonde está Jacinta lavando as roupas da família:

– Jacinta, o Zé chegou.

– O quê?

– O Zé chegou!

– Mentira! Graças a Deus! Verdade?

Jacinta não se contém de alegria e se perde em emoção. E vai correndo para casa. Encontra lá o rapazinho que também está repleto de saudade. De início nem se lembraram da cegueira. Depois ela, aos gritos:

– Está enxergando!? Está enxergando!?

– Estou, mãe!

– Mentira!... – Oh, meu Deus! Me vale, minha Nossa Senhora!...

– Quer ver, mãe? Me dá uma agulha e uma linha.

O Zé – isto é: José Graciano Gonçalves facilmente passou a linha pelo furo – ou, como se diz, pelo fundo da agulha. O Zé nunca mais ficou cego. Apenas ficaram-lhe manchas brancas no preto dos olhos. Eram chamadas “vilidas dos olhos”.

Mas – e o tio Manoel? O que é que ocorreu de modo tão prodigioso diante de todas aquelas características de vida em todo o mundo? O Zé sempre narrava sobre fatos que conheceu durante aquele ano longe de casa. Ouvimo-lo milhares de vezes, mas ele, em seus limites de então, assimilava vagamente o que via e ouvia. Mas, ao menos, teve o privilégio de conhecer a família pelo lado de nosso pai. Tentei, mas consegui pouco e tardiamente. Parece que o tio passeou com ele pelas cidades vizinhas de Divinópolis onde moravam os parentes. Santo Antônio do Monte, Araújos, Bom Despacho... chegou a conhecer até Placidina, madrasta de Vitalino, mãe de outros irmãos e irmãs dele... mas não a Lagoa da Prata, onde Vitalino dizia morar um tio dele.
Contava que foi levado a Belo Horizonte onde foi operado, no Hospital São Geraldo, bem ao lado da Escola de Medicina e que assistia, com os estudantes, dissecar cadáveres, onde lhe foi permitido cortar no braço de um cadaverzinho menino:

– Tinha uma gordura amarelinha...

Comentava sobre o respeito que era ensinado a ter a aqueles que ajudavam à humanidade até após a vida.

Neste momento que estou escrevendo, muitas aulas de fonoaudiologia que minha filha Soraia tem no sexto período, são dadas no prédio do Hospital São Geraldo de então. Sempre que vou lá fico pensando no Zé, menino, operando-se ali em 1.939. Em sua simplicidade não tinha como saber sobre os humanistas que viabilizaram e os que realizaram tais atendimentos, a não ser o humanista tio Manuel.

A mãe gostava de comentar sobre suas maneiras bem educadas de quando voltou. Por exemplo, se descascava laranja, não jogava as cascas no chão.

Além de tudo isto, em 1.939, o que é que estava acontecendo no mundo? Ele, repetidamente, tagarelava sobre os noticiários e os bate-papos a que estava acostumado a ouvir: o alvoroço principalmente europeu e o super belicismo hitleriano. De tanto que falava descrevendo os horrores que ali passavam de absurdos, o pai, que detestava guerrismos, e estava longe de noticiários, repreendia-o só assim, com ares zombeteiros:

– Larga de ser mentiroso, Zé!

Como é possível considerar se era bom ou ruim viver isolado do mundão desta maneira? Afinal, até já se popularizou a afirmação de Einstein:

– Tudo é relativo.

Esta fala do Vitalino não dá o que pensar? Longe das angústias geradas pelos conflitos sado-masoquistas espalhados pelo mundo transformados em notícias?

Não dá para saber sobre o conteúdo das conversas principais entre os dois irmãos. Mas parece-me que, ainda que pouco, Vitalino redirecionou suas metas sobre o futuro da família, sempre projetando como sonhador, atribuindo a cada um suas escolhas profissionais universitárias, além de sempre evitar morar longe de onde existisse escola, e sempre festejava com foguetes as aprovações escolares dos filhos e das filhas.

Mas apesar de todos os bens realizados, todo esse tempo, até hoje, passou sem que tivéssemos qualquer contato com o tio ou sua família. Não sei se houve negligência nossa. Tentei mas não consegui. Na minha idade de 6 anos, nosso pai Vitalino, quando tentava realizar nossa mudança para Belo Horizonte onde, da família, só estava com ele o Zé, e soubemos de sua morte uma semana depois.

Mas tio Manoel permanece sempre em nossos corações.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Memórias de Abaeté

Melosos. Início de 1923 ou, no máximo, final de 1922. Estão trabalhando e tagarelando na fonte a lavar roupas da fazenda a jovem Jacinta e uma senhora experiente e boa amiga. Ao olhar dois amigos que seguem por um caminho rumo ao cerrado, Jacinta interrompem a prosa e, sorridente, diz:

– Por que será que aquele moço não para de olhar para cá?

– É que ele está é gostando d’ocê, filha.

A humanidade. Quantas vezes uma fração de segundo pôde se transformar numa eternidade?

Estava ele seguindo e olhando para trás. Usava um chapéu de palha com uma tarja preta.

Logo nos dias seguintes, Jacinta observava que aquele moço comparecia à casa da fazenda e à casa da cidade e conversava seriamente com os donos de lá, sentados à sala, enquanto ela circulava pela casa a trabalhar.

Melosos fica cerca de uns quatro quilômetros do centro de Abaeté, a caminho de Lagoa de Santa Maria, que por sua vez fica a mais ou menos seis quilômetros (uma légua). Jacinta está lá sob os cuidados dos proprietários há dez anos. Nasceu a 15 de março de 1905 e foi para lá aos oito de idade. Seus tutores, pelo menos os mais citados carinhosamente por ela, eram o casal “o Padrinho Amador e a Sá Rita”. Tudo o que já foi possível saber sobre eles – também por outras fontes – mostra duas pessoas de altíssimo valor humano no sentido de convivência e outros valores.

– Mas… e aí? Não teve namoro não?

– Parece que nem namoro e muito menos noivado!… só uns encontrinhos sentados à sala sob vigilância… mais ou menos assim: “Podem conversar um pouquinho. Pra se conhecerem!”

– E tão rapidinho assim? O casamento se deu no dia 05 de maio de 1923. Casamento admirável, este! Ele se chamava Vitalino. Estava com 25 anos e ela, 18. A tarja preta do chapéu era a marca tradicional do luto por um ano. Ele ficara viúvo pelo falecimento da esposa Maria do Carmo, no que teria sido dela um primeiro parto. Era uma filhinha que também não sobreviveu. Ele era natural de Santo Antônio do Monte, de onde mudou-se sozinho para aquela cidade de Abaeté aos 18 anos. Apesar de não haver muita informação sobre suas origens, o pouco que há, sempre nos fez sentir vontade de saber mais. Se ele tinha sua nostalgia pela família, parece tê-la transmitido à sua nova esposa e sua descendência, mas de modo muito reservado. Contava pouco sobre seu pai, seus irmãos, sua madrasta, um tio que morava em Lagoa da Prata. Sobre sua mãe, Maria do Carmo, de quem ficou órfão aos seis anos de idade, ao que parece. Havia também uma senhora muito querida que parece ser irmã da mãe Maria do Carmo. Ela, devido ao seu visual de cabelos claros do tipo envelhecimento, era chamada carinhosamente de Tia Véia. Sempre que se ouvisse o Vitalino pronunciar Tia Véia, soava de modo agradável assim como quem degusta uma boa fruta bem madurinha. Ela passou a morar em Biquinhas, lugar que até recentemente fazia parte de Abaeté, a caminho de Morada Nova e já se emancipou como novo município. (A Clara já ouviu vagamente de uma pessoa amiga que conhecia uma estudante de medicina, filha ou neta da Tia Véia de Biquinhas.)

Durante sua vida Jacinta narrava a seus filhos fatos ocorridos desde lá dos primórdios de sua existência como estes aí. Narrava, por exemplo, como é que recebeu o nome de sua avó, isto contado pelos adultos de quando ela nasceu:

– “Meu nome é o mesmo da mãe de minha mãe. Quando estavam saindo comigo de lá da Lagoa para a cidade para me batizar, minha vó, que já estava doente, pediu mais uma vez assim”:

– Não ponha meu nome na menininha não! “Jacinta” sofre muito!...

E quando chegamos de volta do meu batizado, ela estava morta”.

A mãe de Jacinta, Josefa, contava que quando acabou a escravidão (lei Áurea), ela era ainda mocinha e que ajudava muito à mãe. Portanto deduz-se facilmente que a mãe era escrava, e ela não; que era mocinha em 1.888 (Áurea); e que não nasceu escrava devido à Lei do Ventre Livre (28/09/1.871). Na diferença entre as duas datas, 17 anos, cabe muito bem alguma idade adolescente. Sua primeira filha, Faustina, quando já quase idosa, comentava ser mais nova que a mãe (Josefa), apenas 15 anos. Então terá nascido antes da abolição total. Eram três irmãos: Miguel, Josefa e Teodolina, chamada entre parentes e amigos – Titia ou Tiadulina, filhos da Vó Jacinta, expostos aos horrores – seja pelo fato, seja pela descendência da escravidão. Miguel viveu até ser citado como pessoa de boas iniciativas, mas não até ser idoso como ocorreu com as duas irmãs. Assim foi uma existência desconhecida por quase toda a família. O marido e o filho e Teodolina chamavam-se, ambos, Luís. Ela tinha sua índole admiravelmente conservadora.

Jacinta sabia contar sobre o que ocorreu com Luís (filho), de modo muito comovente. Essa mãe era uma doçura de convivência com quer que conhecesse e logo era chamada de “titia” não só pelos sobrinhos. Falava lentamente e parecia haver pequena alteração em suas adenóides, o que a deixava levemente fanhosa. Tinha suas decisões próprias e queria a vida com modos bem metódicos. Já idosa, não saía de sua casa de jeito nenhum. Sua irmã Josefa, ao contrário, bem cabia naquela famosa afirmação: os dedos da mão não são iguais. Ambas sempre de sáia até os pés como era comum, isto visto ainda até o meio do século vinte, tradições mantidas pelas senhoras.

Sabe-se que a ousadia de usar o traje feminino na forma de mini-sáia ou seja, acima dos joelhos, corresponde à ousadia de usar até “o meio das canelas”, isto é, acima dos tornozelos. Assim, para cada época, tais questões se fazem notórias. Em cada transição ocorrem os impactos. Quando estabiliza o uso, tornam-se simples costumes , geralmente mantidos pela correspondente geração iniciante, enquanto permanecer vivendo.

Josefa Cardoso de Jesus, sempre chamada “Isefa”, era corpulenta! Volumosa! Parecia ter sido sempre cheia de energia! Bem extrovertida!

Sobreviveram cinco de seus filhos: Faustina, Jacinta Maria de Jesus, nasceu aos 15 de Março de 1.905 ; Júlia, Maria e Orosino (conhecido por Nico).

Em 1.951, Maria dizia que era a caçula e que tinha 28 anos:

– Eu tenho vint’oito.

Dizia. Mas não parece que podia ser, pois nesse mesmo ano , casaram-se suas duas únicas filhas. Tereza (caçula), casou-se com Messias aos 16 anos. Se Conceição, que casou-se com Orcino tinha 18, teria nascido de sua mãe aos dez? Uns trint’ oito... quem sabe?

Maria ficara viúva. Seu marido João, com seu paletó amarelo de brim cáqui,falecera aos 12 de Março de 1.945. Era o tí’João. Ela, a tia Maria, era chamada pelos sobrinhos, de Ti’Ia.

Júlia tinha uma única filha, a Josefina ( Zifina ou Sinhá ).

Nico não se casou, nem foi pai de nenhum filho, pelo que consta. Os sobrinhos e certos amigos chamavam-no de Ti’Nico.

Seu pai, de etnia diferente de Josefa, chamava-se Lino Leite, habitante do mesmo arraial Lagoa de Santa Maria. A irmã dele chamava-se Rita, a tia Rita. (Desta vez não foi apostrofado!).

Josefa nunca se casou.

Por esta descrição, eis a família natural de Jacinta.

Como o objetivo deste texto é atender às sugestões e solicitações da descendência do casal Vitalino e Jacinta, de tal forma que ela se informe sobre suas origens, procuro fornecer minúcias, apesar da carência de dados oficiais. Bem que gostei da sugestão de escrever na forma de saga. Conseguirei?

Tentar entender uma distinção entre viver na cidade ou em alguma povoação afastada da cidade, não é tão fácil como possa parecer. Mesmo entre diferentes cidades pode haver grandes diferenças. Trabalho, escola, lazer, dinheiro, religião, política, clima, flora, fauna, além de muitos itens que configuram o dia a dia de cada lugar onde se esteja. Alegria, tristeza, saudade, amor á vida, apego, desapego, esperanças, metas, frustrações... para cada pessoa tudo isto tem diferentes significados. Eventos marcantes responsabilizam-se pela definição de conceitos impregnados de diferentes sentimentos – às vezes, entre diferentes pessoas, opostos sentimentos pelo lugar onde moram. Como dizia o vate Fernando pessoa:

O Tejo é maior que o rio que passa pela minha aldeia.

Mas o Tejo não é maior que o rio que passa pela minha aldeia

Porque o Tejo não é o rio que passa pela minha aldeia.

Vê-se que sentir-se no lar gera forte apego. Mas ao contrário, quando algum motivo desestabiliza o sentimento pátrio, gera a angústia em busca de novo local onde possa estabelecer novo lar. Sair da terra natal em busca de uma terra adotiva. Para muitos,basta algum sintoma de angústia para gerar enorme xingatório e muita divergência entre os conterrâneos. Se um exulta por se sentir feliz:

– Aqui é um paraíso!

O outro, angustiado, resmunga:

– Isto aqui é um inferno!

Parece que isto ocorre em qualquer lugar do mundo. Ou permaneça no paraíso, ou fuja do inferno como quem se exila. Conforme a índole dos que estão na divergência, a contenda pode variar ofendendo, sim, mas ao contrário, há também confidências amigas que consolam, há esperança de futuros sucessos em busca de alcançar metas, há formas brincalhonas para bons momentos bem humorados, para bons momentos de inspiração para cantar, para amigas chacotas; piadas; inventar verdades; para rir, sorrir. Quem prefere chorar, chore. Quem prefere rir, ria. Quem prefere rir ou chorar de raiva, extravasar-se eliminando os detritos de maus momentos que invadiram seu consciente permanecendo e incomodando. Se prefere cantar, cante. Se prefere rezar, por que não rezar? Quer perambular, confabular, faça-o. Nunca desista de ser feliz e fazer feliz. São inúmeros os meios de resgatar a felicidade.

Todo esse emaranhado de geradores de exodus. Só que no tal emaranhado nada foi dito quanto aos elementos reais geradores. Dentro de cada cidade, grande ou pequena, existe o burburinho semelhante ao burburinho de exodus de um lugar para outro na forma de inquietude. São os “como fazer?” de cada instante. A tendência é que sejam bem duráveis. Dificilmente ocorre o exodus pelo simples prazer. Por exemplo, indicar os porquês do inquilinato pode não ser tão difícil para alguém. Mas em ação conjunta indicar e ir realmente em busca de solução permanente e definitivamente para a nação, é que são elas.

E aí perguntou-lhe, recebendo a resposta assim:

– Onde é sua terra?

– Minha terra? Minha terra é o planeta Terra que fica na gravidade do Sol, a uns 20 mil anos luz Via Láctea adentro!...

Falava gesticulando como quem aponta ponto a ponto de localizações. Uns achavam engraçado, outros achavam ridículo, outros ficaram indiferentes. Odete, que ouviu atentamente, repetiu aquele velho sinal girando seu dedo indicador próximo à fronte, chamando-o de maluco. Honório arriscou um palpite:

– Ele quer dizer é que em qualquer lugar onde estiver, ele se sente em casa.

Oráida:

– Ele é, é um boçal! Não leva nada a sério!

Zezé:

– Que nada, gente. Otávio é sempre brincalhão. Há algum mau em bom humor?

Oráida, com raiva de ter sido contestada:

– Você disse Otávio, ou otário? Esse cara é um lunático!!!

Voltando ao questionado:

– Lunático? Eu? Eu não; Eu sou é terrestre mesmo!!!

Todos riram. Até Oráida.

Um grupo de amigos. As idéias vão surgindo a esmo. Esgotado ou interrompido um tema, desenvolve nova argumentação com diferentes características em cada discutidor. Cada um com sua índole, suas necessidades, suas apreensões, suas habilidades, suas exigências, seus envolvimentos, seus hábitos adquiridos. Surgem polêmicas às vezes sérias e de interesse, às vezes efêmeras; às vezes divertidas, às vezes de mau gosto; às vezes de bom ou de mau humor.

**

Lá está o casalzinho a conversar no período do “conheçam-se antes de se casarem”. Vitalino lhe pergunta:

– Onde é que você gostaria de morar?

– Uai... Qualquer lugar... Não sendo na Lagoa...

Qual terá sido o pensamento do pretendente? Ele ainda não conhece os porquês que a tiraram do convívio com a família, do mesmo modo que ela também ainda não sabe por que é que também ele não convive com seus familiares. Por que terá sido ela tutelada de modo a ter que viver única e exclusivamente para o trabalho? Quantas vezes foi possível vê-la suportando serviços tão pesados, difíceis de serem executados, ainda que fosse pela robustez e reserva de energia masculina? Por que, então, terá ocorrido a tutela? Há quanto tempo? Vitalino não perguntou nada disto. Pode ser que alguém já lho tenha contado pelo menos parte dessa história. Após o casamento, Jacinta narrou-lhe sobre uma verdadeira noite de terror quando, aos oito anos de idade, foi tomada como refém. Como trunfo. Com ameaças pelo uso de um enorme facão. Era um certo fulano chamado Xaveia, um dos muitos amores da mãe dela, Josefa, que nunca se casou mas teve muitos filhos, apesar de terem-lhe sobrevivido apenas cinco.

Parece comum convivermos com tais características na formação de nosso povo no país, sobretudo durante, e na continuação dos muitos reveses inseridos na escravidão. Na continuação da vida oportunista dos donos indutores de postura de inferioridade e obediência escravagista, que até hoje perduram as indiferenças à dignidade de quem trabalha em serviços domésticos, que não tenham atinado com sua segurança. Quem conheceu Jacinta e as características da índole de Vitalino, pode concluir que, neste sentido, ela não passou por estes reveses onde foi tutelada, e que justamente devido ao seu afastamento de onde o perigo estava sempre presente, viveu até ficar sexagenária sempre rigorosa não somente nestas questões, mas também profundas convicções religiosas no catolicismo, a ponto de muitas pessoas em pequeno tempo de amizade reforçavam também suas convicções. O mesmo ocorreu com seus oito filhos. Uma de suas filhas, a Clara, durante toda sua juventude, sempre quis ser freira, até quando optou pelo casamento com o Geraldo Maciel, constituindo uma família composta de seis filhos que sempre confirmam esta afirmação, sendo um deles convicto vigário servindo no município de Patrocínio, no triângulo mineiro. Não somente, também nestas questões, mas no convívio da família em que os descendentes parece passarem por uma fusão entre mais de sessenta neste começo do terceiro milênio como se fôssemos todos uma só pessoa. Isto, quando é evocada uma união, sempre que os eventos durante a vida solicitem. O casal, de um modo geral, vivia em boa sintonia.

O mundo humano é assim. Mas sempre há quem conceitue que tudo está pré- determinado durante a existência, muitas vezes afirmando que “está escrito”. Sei lá! Só sei que por mais que Jacinta tenha trazido do berço suas tendências neste campo referido, as famílias com quem conviveu, o acesso à comunidade do ambiente sempre conciliado com a assiduidade à igreja – tudo isto abria-lhe as portas para que ela pudesse se inteirar, optar e assumir sua religiosidade. Por mais que alguém duvide da validade deste hábito, podemos vê-la, no mínimo, como bom disciplinador da mente – o que não mostrou ser muito promissor para o restante de sua família que permaneceu lá na Lagoa onde, na época, era bem carente dos meios assíduos de cultos. Lá foi construído o primeiro templo no início da década de cinqüenta. Ir à igreja para missa, diariamente no início da noite “ir à reza”, etc., como? Assim Jacinta sempre se sentiu feliz e grata, principalmente ao “padrinho Amador” e à “Sá Rita” onde, além destas referências, havia sempre o hábito de uma vida bem disciplinada, mesmo que se inclua a existência do Fulano Palmatória por lá.

Vitalino também assumia bem ser católico. Mas não gostava de carolismo.

Naqueles dez anos positivamente incrustada onde dela era cobrada responsabilidade até acima do normal numa época em que imperava o patriarcalismo e vigorava ainda até o uso disciplinar da palmatória. Nas referidas propriedades destacava a existência de pessoas realmente amorosas e transmissoras de boa qualidade de vida. Mas parece impossível poder esperar do mundo somente mar de rosas. Parece não poder deixar de existir algum tipo de gente que, para sentir que é retentor de poder, é necessário saciar-se com alguma forma de sadismo. Tais pessoas, parece sofrerem de alguma síndrome com que se sintam felizes, poderosas, inteligentes (“ladinas”). Parece se sentirem no direito de exigir o que bem quiserem e ser obedecidas custe o que custar; como elas quiserem. Absurdo! Lá se destacava uma certa pessoa assim. Mas, felizmente, neste sentido não é comum saírem vencedoras ao longo da vida. São fatos efêmeros desde que as vítimas, uma vez superada a dificuldade, não se apeguem aos desagrados ocorridos. Como se diz: após a tempestade vem a bonança.

Fulano Xavêia, Fulano Palmatória, quem mais ? Tanto faz qualquer um deles? Ora, ainda que ambos sejam indignos de elogios, distanciam-se quilometricamente quando se pondera a diferença entre a exigência de produção por parte do Fulano Palmatória e outros castigos e o ato terrivelmente criminoso por parte do Fulano Xavêia que apenas para persuadir a volta do esconderijo de uma mulher que não queria saber dele, além do medo de sua periculosidade, se apossa de uma criança filha da mesma mulher como meios de persuasão. Povoado sem ruas, entrecortado por caminhos como se fossem afluentes de um rio principal, moradias com grandes quintais altamente arborizados em região de matas fechadas, iluminação de lamparinas e lampiões num tempo em que era carente o mundo inteiro de iluminação elétrica, os mais diferentes sons noturnos de variada fauna desde doméstica, aves e animais da mata, a fauna aquática e dos arbustos em cujos ouvidos de uma criança de oito anos, os uivos ameaçadores do Fulano Xavêia batendo com a bainha e com o facão para que ela chorasse aos gritos. Espetava-lhe a ponta do facão para sangrar, arrastava a menina em movimentos apressados num “anda! – anda!” desnorteado e sempre gritando ameaças do tipo “apareça, senão eu mato sua menina!” apareça, que eu quero matá é ocê!” além de expressões chulas.

Crianças já eram aterrorizadas sobre seres noturnos pelas estórias e crendices, não só nas quaresmas.

– Diante de tal situação, segundo explicava Jacinta:Eu me lembro que a Faustina já era moçona com mais de vinte anos. Ela se pôs a pelejar pela cidade expondo os perigos a que estava exposta a irmãzinha, eu, sendo que pelo tamanho da população, de um modo geral as pessoas eram conhecidas e, às vezes, já bem amigas. Pelejou até conseguir que eu fosse acolhida por uma família boa. Ela conseguiu arrumar para ela também, com quem foi morar pelo resto de sua vida, até hoje, como se ela fosse parte da família, em Itaúna.

Era contado assim aos filhos. Quando se ouvia “Faustina”, conhecida pelos sobrinhos apenas de ouvir falar, vislumbrava-se na mente uma figura meio idosa, morena-mulata, robusta, mas não obesa; rosto risonho; de um modo virtual, uma figura isolada por não ter se casado. Sentia-se na mente uma figura lendária... meiga... agradável...

O casalzinho já se entreolha como se o olhar de um sorvesse o olhar do outro:

– Meu Deus! Será verdade que vamos casar?

– Tem certeza que quer casar comigo?

– Quem dera que já estivéssemos casados... este tempo não passa logo!...

–Ainda faltam algumas horas... já fico até tremendo, olha só!

–Deus há de nos ajudar durante toda a vida.

–Deus sabe d’o que queremos e d’o que merecemos.

–E o padre? Qual será, mesmo, que vai fazer nosso casamento? O padre Vital parece que não vai voltar mesmo.

–Por que, será, que ele foi embora daqui?

–Sei lá... ah! Também tem muita gente aí que não gosta dele...

–Por que, será, que agora é capuchinho? É. Deve ser o ( ) que é o vigário. O ( ), só se o vigário estiver com algum impedimento, né?

A faina, a trabalheira do dia, não deixa em casa perceber que, neste evento, o tempo se esvai ao contrário do que sente quem fixa na mente algum instante longe do atual instante. O pequeno espaço do giro do mundo, já se fez. As horas já passaram.

05 de Maio de 1.923. Horário da tarde. Sábado. Já estão algumas pessoas na igrejinha de duas torres, de Nossa Senhora do Patrocínio, em Abaeté, ajustando alguns detalhes. Da casa de Sá Rita, no Largo do Comércio (pela rua do fundo da igreja, seguindo em direção norte, ultrapassando o Largo do Comércio, chega-se à esquina com a rua transversal onde, no largo, futura Praça Tiradentes mora, então, Sá Rita) já sai a noiva com seu pequeno séqüito para a igreja. De modo simplificado seguem o Largo pela esquerda, em diagonal, no sentido sul. Do quarteirão à esquerda, passam pela vizinhança do antigo cemitério paroquial. Chegaram à rua da frente da igreja. Só mais um quarteirão e chegam no Largo da Matriz. Pronto. Chegaram. O noivo já está junto ao altar à espera da noiva. O padre capuchinho ( ), com sua barba enorme inicia a cerimônia nupcial entre Vitalino Francelino Gonçalves e Jacinta Maria de Jesus.

Terminado o matrimonial na igreja, seguem direto para o cartório. O Juiz de Paz foi Leonídio Rodrigues de Andrade. As testemunhas foram: Antonio Cordeiro de Andrade e Amador José Pereira. Regime de comunhão de bens. Ele: viúvo, nascido em Santo Antonio do Monte em 1.898, filho legítimo de Egydio Francelino Gonçalves e Maria do Carmo de Jesus. Ela: solteira, nascida aqui em Abaeté em 1.905, filha natural de Josefa Cardoso de Jesus e Lino Leite. Não mudou o nome. (Este texto tem fins descritivos e informativos. Óbvio, não tem fins documentais).

Tudo isto ocorreu nos terminais da idade de adolescência. Ele para um pouco mais, ela para um pouco menos. Muitas vezes tais medidas de idade não existem. Entre momentos racionais e momentos enamorados... é como no futuro ouviremos Nelson Gonçalves,de Blaise Pascoal: “O coração tem razões /Que a própria razão desconhece”.

Está realizado o matrimonial, e mais:

– Parabéns... – Parabéns... – Parabéns, Deus que os proteja...

A primeira noite nupcial já vai chegar. Apesar de tanta ocupação não só nas vésperas, mas principalmente neste próprio dia tão marcante e tão memorável que já vem trazido como meta em busca da felicidade, nem todo mundo sente algum por que adiá-la, interrompendo-a apenas para descansar, como costuma ser ponderado.

Em um primeiro e pequeno instante se condensa um longo tempo do passado e do futuro para o controle das emoções. Ambas as partes vivendo e convivendo ações bem amorosas. A natureza esbanja recursos outorgados por Deus como incentivo e gratidão pela preservação da vida. A fala vai se transformando num linguajar simplificado abandonando maneiras formais, surgindo no mundo uma nova unidade composta de um par: eu+você=nós. E as palavras vão se deliciando com pronúncias emotivas e carinhosas. Às vezes, até, se sincopando:

– Talino!...

– Jacinta!...

E para Jacinta, Vitalino nunca mais foi V-i-t-a-l-i-n-o. Para sempre passou a ser o “Talino”. Passou a ser sua prenda Talino.

***

Se tens a alma prenhe de ilusões e vês no amanhã um lampadário que a teu destino ilumine, se crês que um verso é fagulha que inflama a alma e trás no ventre o feto da virtude, não creias na dor, que ela jamais doerá. Sonha. Deixa que o sonho te embale pela ébria noite que se chama – vida!

Só quem sonha tem um amanhã – o despertar. Antes do despertar, não materializes teu sonho. Matéria pesa e pode te esmagar a alma.

A dor só é dor enquanto dói. O sonho só é sonho enquanto se sonha...

Não creias na dor, que ela jamais doerá.

Sonha ... só quem sonha tem o amanhã: o despertar...

***

Ao romper da aurora, quem passa pelas imediações silvestres, já pode sentir as folhas da vegetação orvalhadas pela época do ano. Maio dos casamentos! O gorjeio da passarada parece responder que o casal estava prestes a se despertar da curta dormida na longa noite de amor. É um mundo inteiramente novo neste primeiro dia nupcial. Manhã ensolarada, sem os rigores climáticos entre verão e inverno.

Onde estão? Na certa estão enlevados, flutuando no jardim da esperança. Sonhando com um futuro promissor. Traçando planos. Criando projetos que os conduzam às alturas que lhes permitam alcançar metas de desenvolvimento nas muitas faces da vida humana; que lhes permitam alcançar a plenitude da própria felicidade e da felicidade de quem com eles conviva em qualquer época da vida. Sonhar... Sonhar... Sonhar...

Passa hoje, passa mais amanhã, a natural lua de mel vai se transcorrendo. Onde estão? Algumas vezes já podem ser vistos a circular pela cidade. Às vezes de mãos dadas, ás vezes “de bonde”.

– Hein? De bonde!? Como assim?

– Sim. De bonde. “Andar de bonde” era um casal andando lado a lado. Algumas vezes de braços dados, se casados. Este costume perdurou muito além da referida tradição desta década de 20.

– Isto será por causa de, em bondes, os passageiros sentarem-se lado a lado?

– Não sei. Parece que não.

*****

( Espaço para inserir alguns parágrafos que serão ajustados ).

*****

Lá estavam os dois amigos proseando. Estavam no Largo do Cruzeiro ( futuro jardim novo ), próximos à esquina da Rua .......... ( futura Rua Getúlio Vargas ). Aí também é o 2º quarteirão da Rua ..........( futura Rua 7 de Setembro ). Pedro apoiava seu braço sobre a cabeça do arreio do cavalo que estava com ele. Toniquinho estava agachado, de cócoras, ao lado da porta da barbearia, deliciando-se com o agradável solzinho da manhã. Estava “quentano sol”. Vistos de longe, estavam conversando como velhos amigos em reencontros ocasionais que têm assuntos para contar. Em cada matraquear, pequenas risadas só entre eles. Algumas vezes, boas gargalhadas. Aproximando-se deles, já era possível assistir e ouvir suas conversas. Não havia seqüência temática. Apenas contavam. Apenas falavam.

– ...ah, eu num tava com pressa não, sô. Eu já tinha feito tudo que eu tinha que fazer...

– E aquele outro negócio que ocê tava contano? Como é que ficou?

– Ah. Sei lá, sô! Trisquei fora!

Risos.

– E o Juca seu Primo? O que é que ele falou?

Conversam. De repente Pedro faz um gesto para montar em seu cavalo. Toniquinho, sentindo que acabou a conversa:

– Vai s’imbora não, sô. Vamo prosá mais!

Pedro, continuando a montar:

– Tô percurano o Vitalino, ‘cê sabe dele?

– Sei não, sô. P’ra que?

– O sô João tá percisano dele pra mor de serrá madera. Já fui lá adonde ele morava, mais num achei ninguém lá; parece inté que num mora ninguém lá mais!...

Despedem-se:

– Asta turdia, Tuniquim.

– Antonce, ‘ta turdia... Dá lembrança lá...

Pedro, a cavalo, atravessa a rua seguindo para o início da rua 7 de Setembro. Alcança a então única sem interrupção por este lado, paralela a Getúlio Vargas. É a Rua dos inconfidentes (todas estas ruas tiveram nomes diferentes nesta época do casamento. Afinal é óbvio que Getúlio só passou a ser nome notável no país, a partir de 1.930. Ajustarei como esmero, se for melhor). Desta confluência, ele vai cavalgando ao longo de uma cerca de arame que separa um pasto, do lado urbano, cortando diagonalmente alguns próximos quarteirões até chegar em uma nova confluência onde termina toda a área urbana programada no outro século. Aí começa, abrindo um ângulo pela esquerda, a então chamada “Avenida” Joaquina do Pompéu.