ALINO: Jacinta estava com certas dificuldades de saúde, sofrendo grande hemorragia nasal por ocasião de novo nascimento. Chegou a minha vez. Nasci. 15 de abril de 1.939 (neste texto, eu ainda não podia dizer ”meu pai”, “minha mãe”; pois eu ainda não tinha nascido, né?).
Minha mãe fizera promessa a Santa Luzia pela cura dos olhos dele: se eu nascesse menina, receberia o nome de “Luzia”. Nasci Alino Francelino Gonçalves. Vitalino estava com a idade 41 anos, e ela, 34.
Onde morávamos? Havia a lagoa que dava o seu nome ao lugar onde, em volta, existia algum aterro alto, em cuja base havia pequeno comércio e espaços amplos parecendo uma enorme praça. Daí se alongava um caminho em dois sentidos opostos, com certa população. As moradias eram feitas, em sua maioria, de pau-a-pique, mais chamadas de “casa de capim”, porque eram cobertas de sapé. Poucas eram as de alvenaria e de telhados comuns. Morávamos em uma casa branca que o Sílvio me mostrou sete anos depois, quando lá voltamos; ainda não havia sido construída, ao seu lado, a Igreja Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, o que ocorreu mais na chegada da década de 50.
AMADOR: Em 30 de abril de 1.941, nasce Amador Francelino Gonçalves. Quem vai do referido centro comercial da Lagoa no sentido sul (tipo Asa Norte/Asa sul de Brasília), passará por onde morava Antônio de Menezes com sua família, grande amigo de Vitalino, além de padrinho do Sílvio; em seguida, por onde mora Cinhana, amiga da ti’Ia, uma casa como sendo esquina com o caminho que desce transversalmente para uma pequena ponte sobre um riacho. Contra esquina, estava a casa de nossa avó Josefa. Era uma casa com essas mesmas características, e totalmente livre, sem nenhuma cerca. Em seguida, era a casa da Titia Teodolina. Depois chegamos a nosso destino: na casinha que foi construída vagarosamente por Vitalino em seu terreninho onde desenvolveu ótimo quintal. É aí que nasceu Amador. Os vizinhos mais próximos eram os familiares de Jacinta: além da titia (Teodolina) e nossa avó Josefa, tia Júlia com sua filha Josefina (Sinhá, Zifina...), tia Maria com o marido tio João e as filhas Conceição e Tereza, além do tio Orozimbo (Nico, não confundir com outro Orozimbo, nem outro Nico da história de Abaeté). Eram destes familiares três residências. Ti’Nico estava com a idade de trinta e um anos (nascido em 14 de março de 1910). Por terem recebido algum valor por um terreno, caíram numa orgia tão desagradável a Vitalino, que Ti’Nico pressionou-o para mudar-se dali, querendo ficar em paz com sua orgia. Vitalino sentia que tal ambiente não era adequado à sua índole com a família. O menino Gercino, de seis ou sete anos estava presente aos rudes tratamentos do tio ao nosso pai e, apesar de ser seu afilhado, nunca o perdoôu.
Ainda bem que pelas boas amizades do pai, não durou muito a contenda. Entendendo-se com o padrinho do Amador, o respeitável e bem humorado senhor Mané Chichico (Manoel Francisco), fazendeiro lá na Gerais e, após fechar negócio com o cunhado Nico vendendo-lhe nossa residência, mudamos para Gerais quando Amador estava com dois meses de idade e, portanto, Alino estava com dois anos e dois meses de idade, o que sempre me serviu de calendário-referência para eventos de lá para cá. Já fui muitas vezes instigado a esquecer o passado, mas para quê? Por que? Não conheço nenhuma borracha para usar em minha mente, nem vejo nenhuma necessidade disto.
Paineiras era um dos muitos distritos no município de Abaeté. Tinha em suas proximidades, a sudeste, o lugar chamado Gerais, banhado pelo ribeirão São Jacinto. Desde 1962 Paineiras emancipou-se município. A distância aproximada entre as duas sedes, no sentido norte, é de cinco léguas (trinta quilômetros).
Seguimos em carro de bois percorrendo todo o mocambo Lagoa de Santa Maria até sairmos do arraial. Não posso me lembrar de todo o percurso até Gerais, porque devo ter dormido muitas vezes na viagem. Mas já próximo da chegada o Sílvio, sempre sirigaita, disse ao Gercino, com pulinhos no assoalho do carro, mostrando que por aí já passou
– Nós vamos passar por três cruz. Cê vai ver. Parece que elas é que estão andando, e não nós.
Mesmo com o carro em movimento levantei-me, segurei nas pontas de dois fueiros, ergui-me sobre a esteira e vi que as cruzes corriam para trás com a nossa velocidade (Né, amigo Einstein?).

Nenhum comentário:
Postar um comentário