segunda-feira, 23 de abril de 2012

Novos Irmãos


ALINO: Jacinta estava com certas dificuldades de saúde, sofrendo grande hemorragia nasal por ocasião de novo nascimento. Chegou a minha vez. Nasci. 15 de abril de 1.939 (neste texto, eu ainda não podia dizer ”meu pai”, “minha mãe”; pois eu ainda não tinha nascido, né?).  
Minha mãe fizera promessa a Santa Luzia pela cura dos olhos dele: se eu nascesse menina, receberia o nome de “Luzia”. Nasci Alino Francelino Gonçalves. Vitalino estava com a idade 41 anos, e ela, 34.
Onde morávamos? Havia a lagoa que dava o seu nome ao lugar onde, em volta, existia algum aterro alto, em cuja base havia pequeno comércio e espaços amplos parecendo uma enorme praça. Daí se alongava um caminho em dois sentidos opostos, com certa população. As moradias eram feitas, em sua maioria, de pau-a-pique, mais chamadas de “casa de capim”, porque eram cobertas de sapé. Poucas eram as de alvenaria e de telhados comuns. Morávamos em uma casa branca que o Sílvio me mostrou sete anos depois, quando lá voltamos; ainda não havia sido construída, ao seu lado, a Igreja Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, o que ocorreu mais na chegada da década de 50.
AMADOR: Em 30 de abril de 1.941, nasce Amador Francelino Gonçalves. Quem vai do referido centro comercial da Lagoa no sentido sul (tipo Asa Norte/Asa sul de Brasília), passará por onde morava Antônio de Menezes com sua família, grande amigo de Vitalino, além de padrinho do Sílvio; em seguida, por onde mora Cinhana, amiga da ti’Ia, uma casa como sendo esquina com o caminho que desce transversalmente para uma pequena ponte sobre um riacho. Contra esquina, estava a casa de nossa avó Josefa. Era uma casa com essas mesmas características, e totalmente livre, sem nenhuma cerca.  Em seguida, era a casa da Titia Teodolina. Depois chegamos a nosso destino: na casinha que foi construída vagarosamente por Vitalino em seu terreninho onde desenvolveu ótimo quintal. É aí que nasceu Amador. Os vizinhos mais próximos eram os familiares de Jacinta: além da titia (Teodolina) e nossa avó Josefa, tia Júlia com sua filha Josefina (Sinhá, Zifina...), tia Maria com o marido tio João e as filhas Conceição e Tereza, além do tio Orozimbo (Nico, não confundir com outro Orozimbo, nem outro Nico da história de Abaeté). Eram destes familiares três residências. Ti’Nico estava com a idade de trinta e um anos (nascido em 14 de março de 1910). Por terem recebido algum valor por um terreno, caíram numa orgia tão desagradável a Vitalino, que Ti’Nico pressionou-o para mudar-se dali, querendo ficar em paz com sua orgia. Vitalino sentia que tal ambiente não era adequado à sua índole com a família. O menino Gercino, de seis ou sete anos estava presente aos rudes tratamentos do tio ao nosso pai e, apesar de ser seu afilhado, nunca o perdoôu.
Ainda bem que pelas boas amizades do pai, não durou muito a contenda. Entendendo-se com o padrinho do Amador, o respeitável e bem humorado senhor Mané Chichico (Manoel Francisco), fazendeiro lá na Gerais e, após fechar negócio com o cunhado Nico vendendo-lhe nossa residência, mudamos para Gerais quando Amador estava com dois meses de idade e, portanto, Alino estava com dois anos e dois meses de idade, o que sempre me serviu de calendário-referência para eventos de lá para cá. Já fui muitas vezes instigado a esquecer o passado, mas para quê? Por que? Não conheço nenhuma borracha para usar em minha mente, nem vejo nenhuma necessidade disto.
Paineiras era um dos muitos distritos no município de Abaeté. Tinha em suas proximidades, a sudeste, o lugar chamado Gerais, banhado pelo ribeirão São Jacinto. Desde 1962 Paineiras emancipou-se município. A distância aproximada entre as duas sedes, no sentido norte, é de cinco léguas (trinta quilômetros).
Seguimos em carro de bois percorrendo todo o mocambo Lagoa de Santa Maria até sairmos do arraial. Não posso me lembrar de todo o percurso até Gerais, porque devo ter dormido muitas vezes na viagem. Mas já próximo da chegada o Sílvio, sempre sirigaita, disse ao Gercino, com pulinhos no assoalho do carro, mostrando que por aí já passou
– Nós vamos passar por três cruz. Cê vai ver. Parece que elas é que estão andando, e não nós.
Mesmo com o carro em movimento levantei-me, segurei nas pontas de dois fueiros, ergui-me sobre a esteira e vi que as cruzes corriam para trás com a nossa velocidade (Né, amigo Einstein?).

Tio Manoel


Tio Manoel. Quem era tio Manoel? Para toda a minha família, para toda a descendência de Vitalino e Jacinta, tenho como tio Manoel seja um personagem quase lendário – adoravelmente lendário, pelo menos na forma que flúi em minha mente desde quando eu estava para nascer há quase 70 anos, no final de 1.938 ou no início de 1.939.

Aquele dia era para ter sido uma data histórica para nós, mas nem foi marcado, como tantos outros dias significativos no calendário. A existência de papel naquele lugar, naquela época, era quase zero e a maneira apenas oral de se falar, registrava os fatos apenas de modo sentimental. E, tal como o dia a dia do nosso povo no país, devagar vai se devaneando cada ocorrência, gerando o costume de se renegar o que se passou, talvez para não sobrecarregar a memória querendo sempre que o passado fique no passado.

Naquele dia alguém o reconheceu quando se aproximava da casa – obviamente deve ter sido o Vitalino reconhecendo seu irmão que há tantos anos não se viam. A meninada toda pôs-se a correr ao seu encontro. Menos eu, que ainda ia nascer...

– Mas, e este aí?

Perguntou o tio, ao entrar pela sala. Era um menino maior, com a idade de 11 anos, que vinha se resvalando apressado, com ares sorridentes, ao longo da parede, como quem procura fazer parte da recepção. Era o primogênito José Graciano Gonçalves, que estava completamente cego. Eis um impacto morteiro na enorme alegria que já havia surgido no que chegou: “– Mas, e este aí?” . Mas a sabedoria e o amor familiar se ajustaram e prosseguiram as festividades com muita alegria de todos e iam se inserindo as questões do Zé. Não sei quantos dias tio Manoel permaneceu conosco. Não sei exatamente qual era o local da Lagoa onde morávamos mas, se eu estava para nascer, então deve ter sido numa casa branca alinhada com outras ao lado de onde, alguns anos depois, foi construída a Igreja Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, bem defronte ao aterro da lagoa.

Eram vários irmãos e irmãs oriundos de dois casamentos do pai deles, o segundo ocorrido no dia 8 de outubro de 1.905 com Placidina Cândida de Jesus: ele, Egydio Francelino Gonçalves com 38 anos de idade e ela 19, quando Vitalino já estava com 7 (ou quase 7) anos. Deixados pela mãe Maria do Carmo de Jesus, falecida, estes eram dois dos filhos. Tio Manoel parece ter sido primogênito, porque havia o costume de homenagear o pai ou avô, etc. dando-lho seu nome, e o pai de Egydio era Manoel Domingos Francelino em 1.867. A mãe, minha bisavó, chamava-se Francisca Joana de Jesus. Por isto,nunca entendi de onde surgiu “Gonçalves”. Tudo isto ocorrera em Santo Antônio do Monte, no oeste de Minas, onde Egydio possuía fazenda. Do primeiro casamento sabe-se dos filhos: Manoel, Vitalino, José, (e Bárbara?). Do segundo, me parece ter sido primogênito Sebastião, porque o pai de Placidina chamava-se Sebastião Venâncio dos Santos. Além dele havia também Divino, talvez o caçula. Não soube eu de outras irmãs além de, vagamente, Bárbara que morou em Betim e na região de Belo Horizonte chamada Cabana do Pai Tomás, hoje apenas Cabana.

Pois bem. Não sei se me alonguei muito na apresentação destes dados neste momento em que estávamos é com a honrosa visita do tio Manoel. Desde quando os dois não se viam? Se Vitalino deixou a família em 1.916 aos 18 anos, mudando-se definitivamente para Abaeté passando, ele também, por dois casamentos, raramente contactando alguém num tempo de dificílimos meios de transporte e de comunicação, lá se vão 23 anos. Ele já está com 41 anos. Além de mim ainda seremos mais o Amador e a Lusia. Jacinta está com 34 anos. As ocorrências, as saudades, as inúmeras alterações que o tempo determina, vão sendo narradas por ambas as partes. Tio Manoel contava, por exemplo, que sua filhinha Maria do Carmo, em Divinópolis onde ele morava, já estava grandinha e que já alcançava, na parede, onde se toca a campainha. Será que ao menos Vitalino, ali no grupo, poderia saber de que é que estava falando? Campainha elétrica longe da cidade? A Clara ouviu isto aos seus 7 anos e, até hoje em seus 77 anos, nunca se esqueceu. Assim estava para nós a feliz presença do tio Manoel lá em casa. Contou também que era funcionário da Santa Casa e que, talvez, poderia levar com ele o sobrinho Zé, para ver se conseguiria cuidar-lhe das vistas, já que sua cegueira era recente e em conseqüência de acidentes no serviço de olaria lidando com cozimentos de telhas e tijolos, além de outros problemas como choques térmicos (constipação) e acidentes na cabeça, na região occipital. Avaliaram as possibilidades e concluíram que sim.

Encontrar o irmão com a família vivendo daquela forma não foi nada agradável.

Deve ter sido realmente frustrante, já que o Zé sempre contou que quando entraram e sentaram-se na jardineira para Divinópolis, ouviu o tio jurar, dizendo :

– Adeus, Abaeté, para nunca mais voltar!


***

A felicidade por aquela visita marcou indelevelmente para sempre toda a nossa família. No início a ausência do Zé só motivava alegria pela grande esperança de sua recuperação, ainda que até mesmo nos tempos atuais não seja comum alguém recuperar-se de cegueira. Neste sentido a fé em Deus não deixa espaço para desesperança. Tanto Jacinta quanto Vitalino eram fiéis ao cumprimento de suas promessas e já tinham tio Manoel como enviado de Deus. Uma promessa de Jacinta era que se viesse a ter outra filha ( já tinha duas), dar-lhe-ia o nome de Luzia, como promessa a Santa Luzia. Só que meses se passaram e quem nasceu, fui eu. Então, mesmo com os tradicionais cultos das mais diferentes alegrias, tanto a família quanto a boa vizinhança não demorou a sentir falta do querido Zé, principalmente pela falta de comunicação e a conseqüente falta de notícias. Pouco a pouco a saudade vai se amadurecendo e transformando-se em nostalgia, sobretudo no amor materno de Jacinta. Não faltava quem procurasse confortá-la e alimentar sua esperança. O pai sempre teve o hábito de reunir a família, principalmente à noite, antes do deitar, para rezar o terço. Ao arrematar, todos tínhamos que nos ajoelharmos para rezar a Salve Rainha. A mãe sempre tinha, enquanto viveu, seu livrinho com que ‘tirava novena’...

Já estamos em torno de 1 ano que o Zé foi para Divinópolis com o tio Manoel. Sem que ninguém saiba de nada, eis que está chegando em casa o Zé, sozinho, com seus apetrechos de viagem. Ninguém está em casa. Os vizinhos recebem-no. Vai uma mocinha correndo aonde está Jacinta lavando as roupas da família:

– Jacinta, o Zé chegou.

– O quê?

– O Zé chegou!

– Mentira! Graças a Deus! Verdade?

Jacinta não se contém de alegria e se perde em emoção. E vai correndo para casa. Encontra lá o rapazinho que também está repleto de saudade. De início nem se lembraram da cegueira. Depois ela, aos gritos:

– Está enxergando!? Está enxergando!?

– Estou, mãe!

– Mentira!... – Oh, meu Deus! Me vale, minha Nossa Senhora!...

– Quer ver, mãe? Me dá uma agulha e uma linha.

O Zé – isto é: José Graciano Gonçalves facilmente passou a linha pelo furo – ou, como se diz, pelo fundo da agulha. O Zé nunca mais ficou cego. Apenas ficaram-lhe manchas brancas no preto dos olhos. Eram chamadas “vilidas dos olhos”.

Mas – e o tio Manoel? O que é que ocorreu de modo tão prodigioso diante de todas aquelas características de vida em todo o mundo? O Zé sempre narrava sobre fatos que conheceu durante aquele ano longe de casa. Ouvimo-lo milhares de vezes, mas ele, em seus limites de então, assimilava vagamente o que via e ouvia. Mas, ao menos, teve o privilégio de conhecer a família pelo lado de nosso pai. Tentei, mas consegui pouco e tardiamente. Parece que o tio passeou com ele pelas cidades vizinhas de Divinópolis onde moravam os parentes. Santo Antônio do Monte, Araújos, Bom Despacho... chegou a conhecer até Placidina, madrasta de Vitalino, mãe de outros irmãos e irmãs dele... mas não a Lagoa da Prata, onde Vitalino dizia morar um tio dele.
Contava que foi levado a Belo Horizonte onde foi operado, no Hospital São Geraldo, bem ao lado da Escola de Medicina e que assistia, com os estudantes, dissecar cadáveres, onde lhe foi permitido cortar no braço de um cadaverzinho menino:

– Tinha uma gordura amarelinha...

Comentava sobre o respeito que era ensinado a ter a aqueles que ajudavam à humanidade até após a vida.

Neste momento que estou escrevendo, muitas aulas de fonoaudiologia que minha filha Soraia tem no sexto período, são dadas no prédio do Hospital São Geraldo de então. Sempre que vou lá fico pensando no Zé, menino, operando-se ali em 1.939. Em sua simplicidade não tinha como saber sobre os humanistas que viabilizaram e os que realizaram tais atendimentos, a não ser o humanista tio Manuel.

A mãe gostava de comentar sobre suas maneiras bem educadas de quando voltou. Por exemplo, se descascava laranja, não jogava as cascas no chão.

Além de tudo isto, em 1.939, o que é que estava acontecendo no mundo? Ele, repetidamente, tagarelava sobre os noticiários e os bate-papos a que estava acostumado a ouvir: o alvoroço principalmente europeu e o super belicismo hitleriano. De tanto que falava descrevendo os horrores que ali passavam de absurdos, o pai, que detestava guerrismos, e estava longe de noticiários, repreendia-o só assim, com ares zombeteiros:

– Larga de ser mentiroso, Zé!

Como é possível considerar se era bom ou ruim viver isolado do mundão desta maneira? Afinal, até já se popularizou a afirmação de Einstein:

– Tudo é relativo.

Esta fala do Vitalino não dá o que pensar? Longe das angústias geradas pelos conflitos sado-masoquistas espalhados pelo mundo transformados em notícias?

Não dá para saber sobre o conteúdo das conversas principais entre os dois irmãos. Mas parece-me que, ainda que pouco, Vitalino redirecionou suas metas sobre o futuro da família, sempre projetando como sonhador, atribuindo a cada um suas escolhas profissionais universitárias, além de sempre evitar morar longe de onde existisse escola, e sempre festejava com foguetes as aprovações escolares dos filhos e das filhas.

Mas apesar de todos os bens realizados, todo esse tempo, até hoje, passou sem que tivéssemos qualquer contato com o tio ou sua família. Não sei se houve negligência nossa. Tentei mas não consegui. Na minha idade de 6 anos, nosso pai Vitalino, quando tentava realizar nossa mudança para Belo Horizonte onde, da família, só estava com ele o Zé, e soubemos de sua morte uma semana depois.

Mas tio Manoel permanece sempre em nossos corações.